Era noite do vigésimo segundo dia depois que Ruan deixou sua cidade quando algo novo aconteceu.
Estava muito frio, apesar do verão, e Ruan estava aconchegado perto da fogueira que ele havia feito dentro de uma das salas do colégio Pedro II, localizado no centro de uma Petrópolis abandonada. Ele não sabia, mas alguma coisa estava acontecendo lá fora, o céu estava mudando mais uma vez.
Era perceptível que as cores do céu estavam se tornando cada vez mais fortes e, de certa forma, espessas, mas nesta noite o céu simplesmente apagou, não haviam mais estrelas, apenas alguns contornos estranhos.
Na manhã do dia seguinte o céu era uma réplica invertida da Terra. Como um imenso espelho localizado logo acima da camada terrestre.
Ruan dormia e sonhava com uma confusão de sentimentos, nenhum deles bom.
Assuntos Inacabados
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Ruínas do Mundo - Nota do Autor
A série Ruínas do Mundo é dividida em cartas escritas pelo Ruan e capítulos narrando em terceira pessoa algumas partes da história do mesmo, personagem principal dessa série que eu não sei se vou terminar (como sempre).
Espero que gostem.
Espero que gostem.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Ruínas do Mundo - Carta 1
São José do Vale do Rio Preto, 7 de Fevereiro de 2013
O mundo realmente acabou em 2012. Nada como uma bela profecia Maia para predizer os limites da ignorância humana.
Exato dia 21 de Dezembro de 2012, sexta-feira. O clima natalino já estava impregnado no ar, o que significava shoppings lotados, comerciais natalinos na TV, especiais de Natal, amor e solidariedade aflorando no coração das pessoas. Toda aquela falsidade que eu estava cansado de ver.
Todo o mês de Dezembro segue a mesma ladainha e esse dia 21 seria como qualquer outro, não fosse pelo fato especial, a tal aurora boreal que apareceu no Brasil, por volta do meio-dia. Não é nem um pouco comum aparecerem auroras boreais em locais quentes, algum cientista talvez viesse a contestar esse fenômeno curioso mas, nenhum deles pareceu se manifestar na época. Nem mesmo os telejornais deram muita importância ao fato, apenas algumas menções à aurora boreal, como se fosse algo corriqueiro.
Alguma coisa estava errada, mas o Natal estava chegando e as pessoas estavam felizes. Quem ousaria causar uma discussão sobre isso numa época como essa?
A grande questão é que a aurora boreal vinha se expandindo como se fossem ondas deslizando pelo céu. Perto das 2 da tarde os aparelhos eletrônicos começaram com algumas pequenas interferências. Pouco depois, as primeiras pessoas deram entradas em hospitais com quadros de enxaqueca. Sei que, por volta das 5 da tarde eu acordei do meu 'cochilo' de depois do almoço, olhei pela janela e não vi o céu. O que eu vi era um misto de cores que cobria todo ele. A TV não sintonizava, o rádio só chiava e o Rio de Janeiro estava silencioso... silencioso como jamais esteve. Sai de casa e fui checar a TV da minha avó, que mora na casa de baixo.
A casa estava silenciosa e eu chamei pela minha avó. Quando não obtive resposta eu fui até o quarto dela e me deparei com uma cena que jamais vou esquecer. Meu avô deitado no chão e minha avó caída por cima dele, ambos com sangue no nariz e ouvido.
Engoli em seco e tentei absorver a cena. Ainda em estado de choque eu cheguei mais perto e chequei a pulsação dos dois. Mortos.
Corri para a rua, não sei bem por quê, ainda não estava raciocinando direito. Lá eu me apoiei num muro e comecei a chorar. Eu tinha a impressão de que aquilo ainda não tinha atingido o meu cérebro, mas eu sabia que eu precisava chorar. Foi nesse momento que eu entendi que tinha algo errado.
Olhando para a rua foi que eu percebi uma meia-dúzia de pessoas caídas no chão. Meu sangue gelou. Me aproximei da mulher mais próxima de mim e notei que ela sangrava pelo nariz e ouvido, sem pulsação.
Nesse momento eu tive uma vertigem e me sentei para não cair. Pensei nos meus pais, aqui em São José, foi então que decidi vir. Era minha única saída, meu único refúgio. Temi que algo pudesse ter acontecido a eles.
"Rápido", eu pensei. Me atrapalhei com as chaves do carro e me apressei a dar a partida.
Acelerei o máximo que pude, mas todas as rodovias estavam bloqueadas. Vários carros parados, ligados e com pessoas nas mesmas condições das que eu encontrei na minha rua. O modo mais rápido de prosseguir era de moto e eu roubei a primeira que eu vi, acreditando que o dono não fosse mais precisar dela.
Quatro horas de viagem e eu cheguei aqui. Muitos corpos caídos pela cidade, mas ninguém estava em casa, nenhum sinal dos meus pais. Fiquei por aqui durante mais de um mês, esperando que eles voltassem, tentando limpar a cidade o máximo que eu pude. Ainda tenho arrepios quando lembro da quantidade de corpos que eu tive que remover das ruas e do supermercado, de onde eu roubava os alimentos que precisava.
Nesse exato momento decidi sair daqui. Estou levando comigo alguns alimentos que ainda não estragaram, talvez o suficiente para uns 30 dias. Por algum motivo eu sobrevivi ao que quer que tenha acontecido e eu tenho esperanças de encontrar alguém.
Se você está lendo essa carta, saiba que eu também sobrevivi ao incidente de 21 de Dezembro de 2012, você não está só, tenha esperança.
O mundo realmente acabou em 2012. Nada como uma bela profecia Maia para predizer os limites da ignorância humana.
Exato dia 21 de Dezembro de 2012, sexta-feira. O clima natalino já estava impregnado no ar, o que significava shoppings lotados, comerciais natalinos na TV, especiais de Natal, amor e solidariedade aflorando no coração das pessoas. Toda aquela falsidade que eu estava cansado de ver.
Todo o mês de Dezembro segue a mesma ladainha e esse dia 21 seria como qualquer outro, não fosse pelo fato especial, a tal aurora boreal que apareceu no Brasil, por volta do meio-dia. Não é nem um pouco comum aparecerem auroras boreais em locais quentes, algum cientista talvez viesse a contestar esse fenômeno curioso mas, nenhum deles pareceu se manifestar na época. Nem mesmo os telejornais deram muita importância ao fato, apenas algumas menções à aurora boreal, como se fosse algo corriqueiro.
Alguma coisa estava errada, mas o Natal estava chegando e as pessoas estavam felizes. Quem ousaria causar uma discussão sobre isso numa época como essa?
A grande questão é que a aurora boreal vinha se expandindo como se fossem ondas deslizando pelo céu. Perto das 2 da tarde os aparelhos eletrônicos começaram com algumas pequenas interferências. Pouco depois, as primeiras pessoas deram entradas em hospitais com quadros de enxaqueca. Sei que, por volta das 5 da tarde eu acordei do meu 'cochilo' de depois do almoço, olhei pela janela e não vi o céu. O que eu vi era um misto de cores que cobria todo ele. A TV não sintonizava, o rádio só chiava e o Rio de Janeiro estava silencioso... silencioso como jamais esteve. Sai de casa e fui checar a TV da minha avó, que mora na casa de baixo.
A casa estava silenciosa e eu chamei pela minha avó. Quando não obtive resposta eu fui até o quarto dela e me deparei com uma cena que jamais vou esquecer. Meu avô deitado no chão e minha avó caída por cima dele, ambos com sangue no nariz e ouvido.
Engoli em seco e tentei absorver a cena. Ainda em estado de choque eu cheguei mais perto e chequei a pulsação dos dois. Mortos.
Corri para a rua, não sei bem por quê, ainda não estava raciocinando direito. Lá eu me apoiei num muro e comecei a chorar. Eu tinha a impressão de que aquilo ainda não tinha atingido o meu cérebro, mas eu sabia que eu precisava chorar. Foi nesse momento que eu entendi que tinha algo errado.
Olhando para a rua foi que eu percebi uma meia-dúzia de pessoas caídas no chão. Meu sangue gelou. Me aproximei da mulher mais próxima de mim e notei que ela sangrava pelo nariz e ouvido, sem pulsação.
Nesse momento eu tive uma vertigem e me sentei para não cair. Pensei nos meus pais, aqui em São José, foi então que decidi vir. Era minha única saída, meu único refúgio. Temi que algo pudesse ter acontecido a eles.
"Rápido", eu pensei. Me atrapalhei com as chaves do carro e me apressei a dar a partida.
Acelerei o máximo que pude, mas todas as rodovias estavam bloqueadas. Vários carros parados, ligados e com pessoas nas mesmas condições das que eu encontrei na minha rua. O modo mais rápido de prosseguir era de moto e eu roubei a primeira que eu vi, acreditando que o dono não fosse mais precisar dela.
Quatro horas de viagem e eu cheguei aqui. Muitos corpos caídos pela cidade, mas ninguém estava em casa, nenhum sinal dos meus pais. Fiquei por aqui durante mais de um mês, esperando que eles voltassem, tentando limpar a cidade o máximo que eu pude. Ainda tenho arrepios quando lembro da quantidade de corpos que eu tive que remover das ruas e do supermercado, de onde eu roubava os alimentos que precisava.
Nesse exato momento decidi sair daqui. Estou levando comigo alguns alimentos que ainda não estragaram, talvez o suficiente para uns 30 dias. Por algum motivo eu sobrevivi ao que quer que tenha acontecido e eu tenho esperanças de encontrar alguém.
Se você está lendo essa carta, saiba que eu também sobrevivi ao incidente de 21 de Dezembro de 2012, você não está só, tenha esperança.
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